quinta-feira, 30 de julho de 2009

Um recado do Rocky Balboa para quem é trigo...




Precisa comentar? Bom... parece-me inevitável. Discordo do título "recado... para os covardes". Prefiro "recado... para quem é trigo", porque, são palavras de efeito para quem tem potencial, quem vai fazer história e está apenas um pouco confuso. Vez ou outra, principalmente um novo convertido pode se sentir confuso. Afinal, todos entram no Reino com um olhar natural das coisas e por isso, com a mesma linha de raciocínio. A partir de um estreitamento com o doce Espírito através da Bíblia, da oração e do jejum, a visão é ampliada e as sensações são outras.

Por outro lado, deserto é deserto. As agruras da vida cristã, as provações e tentações, as decepções e o peso da responsabilidade fazem com que a visão espiritual fique turva. Aquela chama diminui, a alma se levanta e dilata as circunstâncias nos fazendo enxergar nada mais do que ela mesma! É aí que mudamos sem perceber. Lá está o velho homem de volta colocando palavras carnais em nossos lábios. Os mandamentos são substituídos por vãos questionamentos. Como já foi postado anteriormente: "esquece-se de crescer"!!!

As palavras do vídeo tornam-se ainda mais incríveis por terem a autoria de alguém que não tem o Espírito da verdade (apesar de que toda sabedoria vem do alto, nisto eu creio). Como é importante que os crentes aprendam de uma vez por todas que "o mundo não é um grande arco-íris". O problema é que este discurso vai de encontro a uma vertente triunfalista de certos púlpitos, não é um discurso popular, não é. O efeito colateral de não se tocar no assunto é uma geração mimada que não sabe lidar com as demandas da vida. A idéia de ser privilegiado por ser crente (e não resta dúvidas de que é um privilégio sim estar na presença do Senhor) desmorona mediante a problemas ou o perdurar deles, como se isso fosse um absurdo, uma injustiça ou sei lá o que. Afinal de contas, somos o povo mais que vencedor e blábláblá.

Ser vencedor não significa vencer sempre - caramba, até o Rocky Balboa sabe disso!!! O que está acontecendo com você, então, meu irmão? Envolvido demais com as questões do dia-a-dia parece esquecido de que todas elas passarão, resolvidas ou não, passarão, porque, se Jesus voltar daqui a um pouquinho mais... de que terá valido tanto estresse e dedicação a coisas que o ladrão rouba e a traça corrói? Faça o que tem que ser feito, porém, não tire seus olhos da eternidade! É olhando para o alto e esperando de lá o socorro que você conseguirá lidar com os problemas, sem ficar cobrando de Deus a solução. Às vezes, o problema terá um tempo maior do que se deseja. Deus pode não te livrar. Porque não é o tempo ou simplesmente porque não quer. E aí? O que fará?

"Se trata de quanto você aguenta apanhar e seguir em frente; o quanto você é capaz de aguentar e continuar tentando". É muito forte! Porque no interior do apóstolo Paulo estava bastante claro viver aqui mirando o céu. A partir disto, se o objetivo maior é o que espiritualmente está por vir, logo, tudo por aqui refletirá por lá. Por maior que seja a dor sentida há um sentido conhecido geralmente apenas pelo Senhor. Paulo se contentava com isto, em saber que ELE sabia o porque. A graça lhe bastava.

Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez. Além das coisas exteriores, me oprime cada dia o cuidado de todas as igrejas. 2Co 11.24-28.

Estas coisas, segundo ele mesmo escreveu (Rm 8.28), tudo era para o seu bem... Não, não... esta não é outra religião, nem outro evangelho. Este é o evangelho do Reino, um pouquinho diferente do que se ouve por aí, mas, deixa quieto. Então, campeão, a escolha é sua. Preparar-se para o arrebatamento é algo que precisa latejar em nosso espírito diariamente. Requer o martírio do nosso eu, requer "disposição pra apanhar e nada de apontar dedos, dizer que você não consegue por causa dele ou dela ou de quem seja. Só covardes fazem isso e você não é covarde. Você é melhor do que isso!!!". Sim, você é melhor do que isso sim!

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado, Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça, Que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência; Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade; Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo; Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória. Ef 1.3-14.




terça-feira, 21 de julho de 2009

A fé sem obras do cristão moderno e sua natureza inoperante

Vilarejo indiano faz casamento de sapos

Tradição diz que ritual agrada aos deuses da chuva.
Moradores esperam benefícios para a agricultura local.


Crianças acompanham com atenção o momento do "sim".


Indianos celebraram neste domingo (19) um 'casamento' de sapos no vilarejo de Madhyaboragari, a cerca de 85 quilômetros de Siliguri. Segundo a tradição local, a união simbólica dos anfíbios agrada aos deuses da chuva, o que garante melhores colheitas.



Os noivos contraem os laços matrimoniais pelas patas.


Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo


Esta é um notícia tragicômica. Absolutamente incrível o que a cegueira espiritual pode fazer com uma nação. E saber que o tal casamento é bastante comum por toda a Ásia. Em março, foi realizado em Bangladesh para atrair a chuva. Pensando em tudo o que acontece no meio evangélico (ou deixa de acontecer), cabe uma reflexão.

Está escrito:"Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação".
1Co 1.21.


Quando se fala de loucura, vem a mente a concepção de extravagância, algo até imprudente. O apóstolo Paulo, no entanto, mostra que diante de tantas aberrações mundanas, o normal, o simples acaba se transformando em loucura. Ser normal é ser maluco. Então, no Reino de Deus, ninguém será obrigado a cometer atos impensados ou vexatórios (como um casamento de sapos, por exemplo). Basta somente pregar a palavra, algo desejado pelos anjos e dado ao homem pelo próprio Deus.

Aí percebemos que tem muito crente perdendo de goleada para os indianos. Dentro daquilo que creêm, eles parecem dispostos a ir até o fim, sem qualquer tipo de questionamentos ou condições. São convictos naquilo que fazem, ainda que pareça estapafúrdio. Por isso mesmo, quando se convertem são uma benção. Centenas de irmãos indianos estão presos, outros vivem em condições sub-humanas debaixo de ameaças e ainda assim prosseguem na carreira da fé. As obras sempre acompanham seja lá qual for a sua fé. Semelhante a Paulo, como fariseu ou apóstolo, um obreiro aplicado nas suas convicções.

Do lado de cá do meridiano, percebemos um espécie de religiosos relaxados com a fé que professam (os tais não-praticantes) e continuam assim ao mudar de religião. Parece penoso para muitos este negócio de ser crente. O estímulo maior de se parecer com Cristo e ter livre acesso a Deus por meio dEle torna-se insuficente. A meta é conciliar a nova vida com a antiga, é conciliar a igreja com o mundo, a vida com Deus com a vida social. O que os outros vão pensar é a algema que prende os pés de muitos que estão na igreja e ao mesmo tempo à beira do caminho.

"Não preciso sair por aí pregando" é o capuz onde muitos se escondem para não se pregar NUNCA. É mais cômodo. Se não prega nunca, a leitura bíblica pode ser diminuta. Basta comer o que sai do altar aos domingos. Se sair pão bolorado, tudo bem, afinal, cada um dará conta de si, não é? Ora ora... quando aprenderemos que existe tempo para tudo sim, tempo de calar, mas, tempo de falar e falar a VERDADE. Pecado é pecado e ponto final. Sem arrependimento ninguém chegará a Deus. Ah, Senhor... que cultura humanista é esta que adentra nos templos e sobe para pregar ao povo? Doutrina em que o homem passa a ser o centro de tudo... como um bebezinho, merece toda a atenção do mundo. Ó cuidado, não faça isso, não fale isso para não constranger. Não constranger??? Por um acaso você conhece alguém que tenha se arrependido de algo sem antes ter-se constrangido????

A palavra de Deus liberta. A fé não vem pelos louvores. A fé não vem pelo orkut, nem pelo msn. A fé não vem por meio de festas. A fé não vem por coleguismo nem confraternizações. A fé não vem pela auto-ajuda, nem pela Programação Neuro-linguística. A fé não vem pela Psicologia. A fé não vem por ser um cara legal. A fé vem pelo ouvir e ouvir a palavra de Deus. E ela não precisa de ajuda, amém? Por que nunca houve um número tão grande de pessoas nas igrejas fracas na fé? Será somente pelas lutas e agruras deste século? Ou será que é falta de alimento espiritual genuíno? Se há falta, isto não serve para encobrir a inexistência de uma busca particular e o não abrir da Bíblia para esquadrinhá-la. A natureza inoperante acostumada a ser servida conflita com a posição de servo no Reino de Deus e induz a uma vida cristã achatada. A conversão é sinônimo de transformação e não adaptação!

O humanismo está injetando timidez no coração de muitos. É constrangimento demais assumir a fé no meio dos colegas da faculdade ou no círculo social. Desta maneira, milhares de vidas famintas continuam incrédulas porque:

Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? Rm 10.14



quinta-feira, 16 de julho de 2009

Uma grande história é feita de pequenas histórias


Não posso andar com isto, pois nunca o usei. 1Sm 17.39

Esta passagem é demasiadamente conhecida pelo povo evangélico e a preferida de muitos. A improvável vitória de um garoto diante de um gigante de três metros, experiente nas guerras. Quantas não são as características que podem ser destacadas ao longo do capítulo dezessete, uma vez que a história é recheada de traços incomuns.

Davi quando ouviu a afronta, automaticamente procurou saber o que estava acontecendo e o que seria feito daquele que vencesse Golias. Durante quarenta dias ninguém havia feito isso, ninguém tomou a iniciativa de resolver o problema, deixaram-se escarnecer e cederam diante das palavras contrárias. Irmão, aprenda que elas fazem parte da vida de qualquer pessoa, crente ou não crente. Cobranças, insultos, acusações, suspeitas... são oportunidades que temos de calar a boca da nossa alma e sentir um Cristo vivo em nós através do Espírito Santo. Quantas vezes você se deixa parar porque alguém disse isso ou está dizendo aquilo? Aí, o que faz a diferença não é o que você ouve, mas, aquilo que você sabe que é. Davi sabia que seu povo não era um povo comum, pois, na mesma hora ele questiona como poderia alguém ir contra o "Exército do Deus vivo". Não dá para acreditar em si mesmo quando não se sabe quem é.

Após o rei Saul concordar, Davi recebe não somente sua autorização, mas também a armadura do rei a fim de estar bem equipado. Menino de pastos, ele veste a armadura, dá alguns passos e diz: "Não posso andar com isto, pois nunca o usei". Esta realmente é uma história diferente, de um garoto diferente que fazia coisas diferentes. Ele estava nada mais nada menos que diante do rei de Israel e não pensa duas vezes em dizer "não, não dá". Existem aqui duas possíveis causas de um discurso como este: ou a pessoa tem auto-conhecimento sobre suas limitações ou, como se diz na gíria, a pessoa está fazendo corpo mole. O cuidado a ser tomado ao se ouvir algo parecido com as palavras de Davi é não tender para a segunda opção, o que é bastante comum nos dias atuais. Muitos líderes julgam que o liderado está fugindo do seu chamado ao dizer "Não posso andar com isto, não posso fazer isso..." sem antes procurar saber a causa de tais palavras. Já refletiu que pode ser, de verdade, falta de aptidão? Que talvez o equivocado da história seja você ao pretender colocar a pessoa errada, no lugar errado, fazendo o que não sabe? Gostaria de receber e-mails dizendo ser mentira o fato de haver inúmeras ovelhas machucadas, longe das igrejas, por terem seus ossos quebrados por alguém que forçou uma "armadura" que não lhes cabia.

Saul não errou em dar a Davi seu melhor equipamento, ele só esqueceu de perguntar, antes, se lhe serviria. É preciso compreender mais a natureza humana e descobrir que as pessoas são diferentes. O que funciona para um pode não funcionar para o outro. Vale olhar para a história de vida da pessoa porque foi justamente isto que fez a diferença para Davi. Ele tinha história com Deus. Ele não foi rebelde em rejeitar o dote do rei tanto que o rei não se opôs a ele - Davi tinha uma saída, um estratégia, uma maneira própria de resolver a questão diferentemente de muitos que apenas criticam e não metem a mão para fazer.

E Davi tirou aquilo de sobre si. Tomou o seu cajado na mão, e escolheu para si cinco pedras lisas do ribeiro, e as pôs no alforje de pastor, que trazia, a saber, no surrão; e, lançando mão da sua funda, foi-se chegando ao filisteu. 1Sm 17.39-40.

Veja só! O que o cajado de Davi estava fazendo com ele se ali não tinha ovelha? Cajado é símbolo de autoridade e isso nos remete ao homem e mulher de Deus que não tem vida dupla. Está com seu cajado na igreja e no trabalho, entre os irmãos e entre os amigos da faculdade. Sabe que é um homem de Deus independente do lugar ou situação. Não negocia com o pecado, não abre precedentes que venham a manchar o reino de Deus. E pensar que tem crente que não leva a Bíblia nem para os cultos da igreja... toma vergonha na cara, rapaz, ou vá procurar rostinhos bonitos no mundo porque igreja não é lugar disto.

Por que será que Davi escolhe cinco pedras lisas? Simplesmente porque se não fosse lisa, certamente a pedra ficaria presa na funda. Isto é atitude de quem sabe o que está fazendo. Aleluia. Era notória a desvantagem se houvesse um confronto corporal, então, Davi partiu para algo que fosse preciso sem a necessidade do mano a mano. Compreende que nem sempre a armadura é a única solução possível? Compreende que não precisa imitar ninguém e nem de nada que você já não possua para dar certo no Reino de Deus? Quando a palavra de Deus e a presença do Seu doce Espírito não forem suficientes para você caminhar é sinal de que existem partes do seu ser que ainda não se converteram.

No último ato deste episódio, Davi parte para a finalização do inimigo. Se Golias já estava no chão, por que arrancar-lhe a cabeça?

Respondeu Davi a Saul: Teu servo apascentava as ovelhas de seu pai; quando veio um leão ou um urso e tomou um cordeiro do rebanho, eu saí após ele, e o feri, e livrei o cordeiro da sua boca; levantando-se ele contra mim, agarrei-o pela barba, e o feri, e o matei. 1Sm 17. 34-35

O feri e o matei. Davi sabia que um inimigo ferido ainda é um inimigo perigoso. Arrancar a cabeça do inimigo significa tirar-lhe a chance de revidar, algo difícil de ser aprendindo por alguns novos convertidos. Ele estão bem na igreja, sentem-se bem, mas, jogar fora aquele monte de lixo (cds, imagens, presentes, etc.) é algo impensável. Notícia: se a sua casa mais parece um queijo suíço (está cheia de brechas) não reclame quando der rato!!! Muita gente boa canta hino da vitória antes do tempo só porque o inimigo está adormecido. É preciso maturidade, ou melhor, mais do que isto, é preciso ter história com Deus.

Todas estas atitudes de Davi se deram porque ele era alguém que tinha experiências. Ali, talvez aonde ninguém quisesse estar, no pasto, cuidando de ovelhas, ali ele cresceu em fé. Ali, sem ser notado por homens, Davi foi notado por Deus. Teve o seu coração moldado, aproveitou cada momento como uma preparação. E você? O que tem feito deste tempo de anonimato? Reclamando e requerendo reconhecimento? Arrependa-se hoje, porque o anomimato pode ser o melhor lugar para se estar quando sabemos quem somos e quem é o nosso Deus.

Ao ouvir reclamações sobre alguém, pense nas histórias de vida de cada um, do reclamante e do reclamado. Pergunte à pessoa sobre suas experiências, sobre seus momentos com Deus, sobre como fazer para se ter mais intimidade com o Pai. Se cair um silêncio, querido, mande ela pentear barba de leão!!!

Quem sabe assim ela não começa a ter histórias com Deus?





terça-feira, 14 de julho de 2009

Calvino: fanático ou reformador?



Quem ler o perfil de João Calvino retratado na “História do Cristianismo”, do historiador britânico Paul Johnson, provavelmente ficará com uma péssima imagem do reformador. Católico humanista identificado com o legado de Erasmo de Roterdã, Johnson expõe um Calvino intolerante, com uma doutrina de predestinação terrível, que ajudou a conduzir Genebra num sistema cada vez mais fanatizado no Século 16. No livro não se encontra um reformador, um estadista, mas um perseguidor implacável de heresias, um sujeito obcecado em punir aqueles que se desviassem de sua orientação.

Destaco aqui a visão de Paul Johnson, um historiador respeitado, porque essa imagem de Calvino não é incomum no imaginário do homem culto secularizado. Porém, esse é um estereótipo, uma bobagem, uma caricatura ridícula. Julgar Calvino por perseguir heresias no Século 16 -- época em que a heresia era vista com a mesma gravidade que o crime de traição -- implica condená-lo por não ter nascido no Século 21, a bordo de todas as mudanças culturais e históricas dos últimos cinco séculos, que nos permitem ser assim tão mais sábios que nossos ancestrais na fé. Depois da história, todos são sábios.

Caricaturas à parte, o importante é que neste ano se comemora o quinto centenário de João Calvino, que nasceu em 10 de julho de 1509. É papel da igreja evangélica, não apenas da igreja formalmente denominada reformada, resgatar o imenso legado deixado por esse gigante da fé.

Por estar mais proximamente identificada com a herança deixada por Wesley, que, como se sabe, pendia mais para a doutrina arminiana do que para a concepção de predestinação sistematizada por Calvino em sua teologia da graça, a igreja pentecostal -- e por consequência os neopentecostais -- porta-se como se nada devesse ao reformador de Genebra, a quem inclusive vê com certa antipatia.

Esse é um erro lamentável. A dívida de todos nós, históricos ou não, para com João Calvino é imensa. É impossível desenvolver a temática apenas num artigo como este. Porém, vale a pena destacar dois pontos para pelo menos procurar demonstrar a importância que sua figura histórica representa para todos nós.

É um estereótipo de mau gosto reduzir o calvinismo à predestinação. A preocupação central de Calvino era com a glória de Deus, ao ponto do zelo extremo. Textos como Romanos 11.36 (“Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas”) e 1 Coríntios 10 (“Quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, façais tudo para a glória de Deus”) são centrais para a compreensão do seu pensamento e de sua ênfase na soberania de Deus. Aliás, num tempo em que a igreja esquece seu papel de expressar a glória de Deus e se volta de modo crescente para a satisfação das necessidades individuais, talvez a ênfase de Calvino seja mais necessária do que nunca. A ideia de que meu casamento, meu trabalho, meus relacionamentos etc., devem expressar a glória de Deus, sutilmente apaga-se cada vez mais, para dar lugar a uma teologia que tem como referência última a felicidade humana (isto é, meu casamento, meu trabalho, meus relacionamentos etc., devem servir à minha felicidade -- e que Deus me ajude!).

Além dessa saudável preocupação com a priorização da glória de Deus na existência como um todo, não podemos jamais esquecer o papel de Calvino como reformador. É certo que Lutero o antecedeu. Porém, a Reforma ainda não havia encontrado alguém que expressasse sua teologia, uma figura que sistematizasse de modo compreensivo o pensamento que Lutero expressou de modo apaixonado, mas desordenado. A Reforma já tinha seu Pedro, mas lhe faltava um Paulo. Com as Institutas da Religião Cristã o movimento ganhou um documento, uma apologia ordenada e sistemática, que lhe deu a estrutura necessária para crescer e avançar.

E a grandeza de Calvino foi justamente demonstrar que a Reforma não preconizava nada novo. Não se estava reiventando a roda, mas simplesmente proclamando o evangelho conforme suas raízes primitivas. Com seu conhecimento profundo das escrituras e sua cultura enciclopédica, demonstrava a cada passo que as principais reivindicações do movimento reformado estavam perfeitamente alinhadas com a Bíblia e o ensino dos pais da igreja.

Eram belas lições para seu tempo, e são belas lições para a igreja de hoje. Foco do culto e da existência humana na glória de Deus e profundo respeito pelo legado daqueles que vivenciaram a fé antes de nós. Parodiando Newton, a igreja pode prestar um tributo a Calvino nesta celebração dos quinhentos anos de seu nascimento e dizer: “Se hoje enxergamos mais longe é porque nos erguemos sobre ombros de gigantes”.


João Heliofar de Jesus Villar, 45 anos, é procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico.





quarta-feira, 1 de julho de 2009

Espelho, espelho meu...


Naquele dia o SENHOR engrandeceu a Josué diante dos olhos de todo o Israel; e temeram-no, como haviam temido a Moisés, todos os dias da sua vida. Josué 4.14

Estamos no início de mais um semestre e cabe a pergunta: seu comportamento está te levando para onde? Se tem promessa e crê nisso, suas atitudes o demonstram? É simplório demais achar que a condição de filho de Deus garante o cumprimento do projeto divino em nossas vidas. Deus é sim soberano, por outro lado, é também participativo e interage com os seus porque sabe que isso lhes faz bem, torna-os mais semelhantes a Ele.

Fama, status, respeito... quem não gosta de um tratamento vip? Aquilo que muitos hoje dão a vida para conseguir, Josué alcança de uma forma bastante simples, mas não casual. A Bíblia diz que todas as palavras do Senhor ditas através dele se cumpriram, incluindo os conselhos de Moisés. Foram cumpridas porque ditas. Foram ditas porque foram ouvidas por alguém que sabia ouvir a Deus e aos homens. Uma percepção limpa de alguém que tinha realmente visão do mundo espiritual. Este era Josué. Ele caminhou para aquele grande dia através de seu testemunho, sua obediência, sua paciência, sua iniciativa... Se você quer ouvir Deus, mas não consegue ouvir o seu semelhante, esquece! Põe dificuldade em tudo que te mandam fazer e ainda quer ser cabeça? Tu tá de brincadeira, maluco!!!

E falava o SENHOR a Moisés face a face, como qualquer fala com o seu amigo; depois tornava-se ao arraial; mas o seu servidor, o jovem Josué, filho de Num, nunca se apartava do meio da tenda. Ex 33.11

O comportamento de Josué era compatível com a promessa de Deus em sua vida. Enquanto todos estavam em casa, inclusive Moisés, ele permanecia próximo do local onde a presença de Deus se manifestava. Talvez por curiosidade ou pela esperança de que Deus também lhe falasse face a face. Enfim, permanecer próximo à tenda era uma demonstração de persistência e iniciativa, qualidades fundamentais para aquilo que estava por vir em sua vida. Ele era apto.

Deus não falava com ele diretamente, mas, ali ele permanecia. Antes de o Senhor visitá-lo, Josué buscou ser visitado. Antes de aprender a ouvir a voz do Senhor, Josué aprendeu a ouvir Moisés. Antes de mandar, ele obedeceu. Pode ser duro o que vou lhe dizer, mas quem determina o ritmo de sua vida espiritual é você mesmo. Você mesmo. É impossível vir para as nossas vidas o que não respeitamos na vida dos outros. Josué recebeu respeito na mesma medida em que respeitava Moisés. Não era razoável permanecer diante de uma tenda vazia sendo passivo de chacotas e comentários infelizes, no entanto... Josué... Josué incrivelmente era definido na sua fé.

Josué não cobiçava a posição de Moisés ou as coisas que ele tinha. Cobiça é diferente de admiração. A postura de Josué, seu respeito... ele era mesmo diferente... não perdia tempo com conversas paralelas. Moisés ordena que ele vá espiar a terra e Josué dá o feedback: sim, senhor! É pra quando? Han... esse era Josué!


Você sente-se bem, hoje? Olhe para o que tem feito nos últimos dias, semanas e meses e analise se não é você quem planta sementes geradoras de um fruto insosso que é a sua vida. Josué tinha dentro de si o ensinamento repassado pelo apóstolo Tiago:


"Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós..." Tg 4.8

Uma ação de nossa parte repercute no mundo espiritual; nossa passividade também. Talvez você tenha iniciativa para tantas coisas... esbravejar, falar, reclamar, impor-se diante de homens... mas quando se trata de mundo espiritual, você é um néscio! Francamente, irmão, cresça! Do contrário, a história de Josué será apenas uma história.

Se a sua vida espiritual não anda lá essas coisas, olhe-se no espelho. O culpado é aquele que você vê!



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