terça-feira, 28 de setembro de 2010

Eleições 2010 - os militantes evangélicos (e o voto de cabresto)

 
Época de eleições é o melhor período para verificar o quanto o discurso evangélico está mais atrelado a um projeto de poder político do que propriamente ao anúncio da boa nova. Ideologia (e não teologia) é o que os anima. Há muitas e honrosas exceções, obviamente, mas já não é mais possível identificar onde que está a regra, justo os evangélicos que sempre disseram ter a Bíblia como única regra de conduta. Nada inesperado, infelizmente, já que quem não tem escrúpulos no trato da verdade fática que o rodeia, menos compromisso terá ainda com a Palavra. A boataria e as teorias de conspiração que tomam conta das caixas postais e da blogosfera cristã é de deixar qualquer um envergonhado. Informações bombásticas e caluniosas são repassadas como se verdades fossem, sem que ninguém se dê ao trabalho de checar a sua veracidade, tudo no afã de apoiar este ou aquele partido político. Candidatos são demonizados ou canonizados conforme o gosto do freguês. Tudo é preto ou branco, não há mais espaço para tons de cinza nem para a humanidade que nos nivela a todos. Como se todos fôssemos membros de torcidas organizadas brigando nas imediações do estádio, precisamos eliminar uns aos outros sem qualquer clemência. Como cristãos evangélicos, deveríamos nos considerar reciprocamente como irmãos, mas se um vota no partido A e outro no partido B, então não podemos mais ter comunhão.


É legítimo que cada cristão tenha sua opinião política, e que dialoguemos respeitosamente sobre as nossas diferentes visões de mundo. Daí a querermos impor ao outro os nossos valores absolutos obtidos em fontes mentirosas e tendenciosas (evangélicas ou não) vai uma grande distância. Existem meios e momentos próprios para a discussão política, e eles devem ser incentivados. Entretanto, o que tem se visto e lido é uma militância evangélica exarcebada a favor deste ou contra aquele candidato, sem nenhum compromisso com nossas raízes mais profundas (senão as únicas), onde está fincada a mensagem da cruz de Cristo. É natural que uma determinada candidatura nos chame a atenção por se adequar melhor à nossa cosmovisão cristã, mas nem por isso ela é perfeitamente evangélica nem as outras são completamente contrárias à Igreja, sobretudo num país como o Brasil, em que a pulverização partidária e utilitarista leva às alianças mais improváveis. Lembro-me, por exemplo, das eleições de 1986, em que votar (o que fiz) no Mário Covas e no Fernando Henrique Cardoso para senadores (eram duas as vagas), então no PMDB, foi considerado como pecado por muitos cristãos, já que naquele ano se formava a Assembleia Constituinte que promulgaria a Carta Magna em 1988, e os dois eram vistos como favoráveis a toda uma gama de temas-tabu (do aborto à reforma agrária) que apavoravam muitos cristãos fundamentalistas. Nas eleições presidenciais de 1989, aventar a possibilidade de votar no Roberto Freire (então comunista do PCB, hoje PPS) era mais do que suficiente para que alguns irmãos lançassem dúvidas sobre a sua fé. Esses eram escândalos político-evangélicos da década de 80. Mais de vinte anos depois, nenhum dos terrores preconizados foi perpetrado, e todos esses nomes (à exceção do finado Covas) estão do mesmo lado de muitas igrejas evangélicas que os demonizavam, mas se esqueceram convenientemente das restrições que lhes faziam à época, porque se revelaram apenas mentiras de ocasião.
 
Estamos na reta final das eleições de 2010, e há uma militância evangélica aguerrida, semeando divisão, ódio e confusão. Gente boa dissemina boatos falsos e inverossímeis, associando-se a colegas “pastores” de vida suspeita, estes também ligados a candidaturas e projetos políticos inconfessáveis. Gente que você preza, que queria ter como irmão ou pastor, mas que nessas horas mete os pés pelas mãos e ofende os mais comezinhos princípios de inteligência e fraternidade. Aí a gente percebe que eles, infelizmente, estão mais preocupados com um projeto político pessoal - com os favores daí decorrentes -, no qual empenham as suas melhores forças. Lindo seria se tivessem a mesma disposição e usassem a mesma energia para pregar o evangelho de Jesus Cristo. Só isso...
 
 
1) Voto de cabresto - [Na República Velha] os coronéis eram os líderes políticos do interior, geralmente grandes proprietários de terras, mas entre eles havia também comerciantes, médicos, padres ou advogados. Eles eram a base de sustentação política das oligarquias, representantes e beneficiários do governo estadual nos seus municípios. Controlavam a política nas suas localidades com a autoridade recebida do partido republicano, com poderes para obrigar o eleitorado a votar nos candidatos por ele indicado. Seus métodos de ação eram o clientelismo, ou seja, a relação de dependência entre o eleitor e o coronel por meio de proteção e favores aos clientes (emprego, escola, etc.), e a força bruta. Fonte: Nova História Net
 
 
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